login


Cadastre-se aqui
senha
 

Esqueceu sua senha?

Home
Controle de qualidade
Curriculum do diretor
Publicações científicas
Genetika na mídia
Localização
Contato
Exames oferecidos
Solicitação de exames
Resultados
Aconselhamento
Teste de Paternidade
Banco de DNA
Pesquisa genética
Cadastre-se
Sugestão/reclamação
Cadastre seu curriculum
Notícias
Eventos Científicos
Projeto Genoma
CID Doenças genéticas
Associações de apoio
Diretrizes do CFM
CBHPM
Login




  .: Projeto Genoma Humano

         Decifrar códigos sempre foi um grande desafio para a espécie humana. No século XIX Champolion decodificou os hieróglifos Egípcios. O famoso poeta norte-americano Edgar Alann Poe, que viveu de 1809 a 1849, deixou alguns poemas em taquigrafia que até hoje, 155 anos depois de sua morte, não puderam ser decifrados. Nos anos 60, Gerald S. Hawkins deduziu os mistérios de Stonehenge.

         Em 1985, Thierry Gaudin publicou o seu revolucionário Secret Code of the Bible. O dia 14 de Abril do ano de 2003 ficará marcado por décadas, talvez até séculos, na historia da humanidade, pois neste dia foi revelado o segredo do código dos códigos, o código da vida. Neste dia o homem desvendou um segredo que a natureza guarda a sete chaves por milhões de anos; a ordem correta das substancias bioquímicas que compõem o seu código genético. Foi uma jornada de 15 anos de pesquisas em centenas de laboratórios espalhados por mais de 20 países do mundo, todos com o mesmo objetivo: decifrar o código da vida.

         O ser humano quando recém-nascido tem 26 bilhões de células e um adulto tem cerca de 50 trilhões. No centro de cada uma desta células está o nosso GENOMA.

         O termo GENOMA refere-se ao conteúdo total de material genético de um organismo, seja este uma bactéria, um virus, uma mosca ou um Humano. Desvendar os segredos do Genoma Humano, por razões óbvias, era um projeto ambicioso. Filosoficamente, esta ambição talvez tenha iniciado em 1969, quando o homem se frustrou ao compreender que não encontraria na Lua, a milhões de quilômetros de distancia, as respostas para os enigmas mais crucias do ser humano: De onde nós viemos? Quem somos? Para onde iremos? A frustração de não encontrar as respostas a estes enormes dilemas com a conquista do espaço, fez com que os cientistas fossem procurá-las em outro lugar. Talvez estas informações estivessem na verdade escondidas muito mais próximas dos cientistas do que eles mesmo imaginaram quando conceberam o Projeto Apolo que levou o homem à Lua. Naquele momento se questionou se não seria hora de voltar os investimentos para dentro de nós mesmo. Ou melhor ainda, dentro do centro de cada uma das células que compõem o organismo humano.

         Imbuídos desta filosofia, um grupo de pesquisadores liderados pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH) e do Departamento de Energia norte-americano (DOE) (este último não por coincidência o mesmo órgão que planejou e levantou fundos para levar o homem a Lua), se uniram para iniciar uma jornada que de tão ambiciosa, acabou se transformando em um dos maiores marcos científicos de todos os tempos: o sequenciamento do Genoma humano.

         Imagine que fosse colocado a sua disposição uma grande enciclopédia cujo título fosse "O Livro da Vida". Esta enciclopédia seria composta de 23 volumes e conteria um total de 3 bilhões de letras. Porém ao contrário de nosso alfabeto, que contem 23 letras diferentes, as palavras deste livro só teriam quatro letras (A, T, C e G). Uma das dificuldades para a leitura deste longo texto composto por estas 4 letras que se estenderia pelos 23 volumes, seria de que o texto não vem pronto com a habitual separação em parágrafos, nem com pontuações. Seria uma tarefa extremamente árdua ler este enorme texto contínuo, sem interrupções. Agora imagine que só 1% dos 3 bilhões de letras realmente contivessem a mensagem fundamental do livro, e os outros 99% fossem compostos de enormes parágrafos que só estariam ali como parte do texto de edições muito antigas, que nem sequer fazem mais sentido hoje em dia. A princípio o fato de que só 1% seria importante para a sua leitura poderia soar como um alívio, afinal, você não precisaria mais ler 3 bilhões de letras, mas "apenas" cerca de 30 milhões delas, os 1% que trariam a "verdadeira" mensagem da vida. Porém, como discernir, no todo, entre os 1% que realmente trariam a mensagem do livro e os 99% que " nada acrescentariam" a leitura? E os outros 99%, seriam mesmo inúteis no contexto deste livro da vida?

         Nosso genoma pode ser comparado de uma forma didática a esta grande enciclopédia de 23 volumes com o qual a humanidade foi presenteada há um ano atrás. Cada um dos 23 volumes seria um de nossos 23 cromossomos. Cada capítulo seria um pedaço de DNA, porém 99% dos capítulos, a princípio, não teriam grande interesse, já que só 1% dos capítulos trariam a mensagem fundamental do enredo da vida, ou seja, seriam os famosos "genes". Porém, mesmo os genes, apesar de tão minúsculos que não podem ser visualizados com o mais potente microscópio imaginável, não são unidades indivisíveis; eles são formados por vários pedaços chamados de Exons. Estes Exons, como certos parágrafos de uma página de um capítulo, se combinam para dar forma aos aminoácidos, componentes básicos das proteínas. Mesmo dentro dos genes, separando os vários Exons, certos parágrafos chamados de Introns, pareciam não ter significado. Portanto só 1% do nosso Genoma é que realmente codificaria para proteínas, que são o carro-chefe da maioria das funções biológicas.

         O primeiro passo para desvendar este mistério seria descobrir em qual ordem a natureza posicionou esta seqüência de 3 bilhões de A, T, C e Gs, segredo este guardado a sete chaves por milhões de anos de evolução. Foi esta ordem que no dia 14 de Abril de 2003 foi finalmente revelada, após 13 anos de trabalho extenuante de uma colaboração científica internacional coordenada pelo HUGO (Human Genome Organisation), do qual tenho a honra de fazer parte sendo um dos representantes do Brasil. Inicialmente o prazo para conclusão do trabalho deste grupo colaborativo, que começou oficialmente a trabalhar em 1990, era de término em 15 anos, ou seja, 2005. Esta epopéia tomou ares de competição, com a entrada de uma empresa privada na corrida pelo ouro Genético, a CELERA, que como o próprio nome já diz, veio com a proposta de aCELERAr o processo de sequenciamento. E esta empresa não apenas conseguiu isto, como fez o projeto público, conhecido como PROJETO GENOMA HUMANO propriamente dito, apressar seus passos, sob pena de nosso grupo internacional de pesquisadores jogar por água abaixo os 3 bilhões de dólares que foram investidos. Mais importante do que a verba despendida, estava em jogo o patenteamento do Genoma por uma empresa privada.

         Em Junho de 2000, em uma atitude politicamente correta, os líderes de ambos os grupos, Francis Collins (projeto público) e Craig Venter (projeto privado) concordaram em revelar juntos, da Casa Branca para o Mundo, que tinham praticamente concluído um primeiro esboço do Genoma Humano. Em 2001, fazendo uso das duas mais importantes revistas científicas Internacionais (SCIENCE, publicando a seqüência obtida pela Celera, e NATURE, a do Projeto publico), foi publicado um primeiro rascunho das 3 bilhões de letras bioquímicas do Genoma. Esta seqüência foi revisada e sua versão definitiva entregue à humanidade há um ano atrás, em 14 de Abril de 2003.

         Um ano é pouquíssimo tempo para podermos fazer uma análise completa do que representa aquilo que foi revelado ao mundo em 14 de Abril de 2003, até porque os próprios cientistas ainda desconhecem o significado de boa parte das seqüências que descobriram. A sensação que a comunidade científica vive neste exato momento é semelhante a de Champoleon ao tentar decifrar os hieróglifos da Pedra Roseta. Temos um tesouro riquíssimo na mão mais ainda vamos demorar anos para compreender e desfrutar da mensagem que este livro tem para nos ensinar. Na semana passada, 800 cientistas do Human Genome Organisation, HUGO, comitê cientifico internacional de pesquisa do Genoma, se reuniu em Berlin para analisar os avanços obtidos um ano após a revelação da seqüência do Genoma. Tive a honra de representar o Brasil, e resumo abaixo as principais conclusões da Reunião do HUGO:

  1. A seqüência obtida pelo PROJETO GENOMA HUMANO e pela CELERA são extremamente parecidas, demostrando que o trabalho feito por ambas as equipes foi de grande qualidade. A eficiência de uma equipe foi automaticamente "provada" através do trabalho da outra. Ressaltou-se que a cada dia que passa fica mais claro a importância da iniciativa pública do PROJETO GENOMA HUMANO; muito possivelmente não teríamos hoje acesso irrestrito e gratuito às páginas deste livro da vida, que estariam certamente coladas pelas amarras do patenteamento, que só não aconteceu, porque sob a coordenação do HUGO, o PROJETO GENOMA HUMANO foi divulgando pouco a pouco as seqüências na Internet, fazendo com que qualquer plano de patenteamento por parte da CELERA perdesse o sentido;

  2. Contrariando todas as expectativas, que estimavam o número de genes da espécie humana em torno de cem mil, o número de genes encontrado por ambos os grupos de pesquisa do Genoma Humano foi de cerca de 30 mil. Este resultado surpreendente tem vários desdobramentos; o primeiro é que ele nos mostra que a complexidade de uma espécie não é diretamente proporcional ao número de genes. Como a seqüência do Homo sapiens é muito parecida com a dos outros organismos vivos, e como certamente nossa prepotência não nos permitirá assumir que não somos muito diferentes de uma mosca ou de uma minhoca, teremos então que encontrar uma outra explicação para entender o que nos diferencia, por exemplo, da mosca da fruta que tem 15 mil genes, ou da minhoca que tem 19 mil genes. Os próprios dados revelados pelo sequenciamento já nos dão uma pista de que uma parcela da complexidade provavelmente será explicada pela multiplicidade de possíveis combinações dos Exons (os parágrafos da página que realmente codificam para aminoácidos e proteínas) na formação de uma ou mais proteínas por gene, produzindo assim, partindo dos mesmos genes, mensagens diferentes em cada espécie, ou até em diferentes partes do corpo de um mesmo indivíduo.

  3. O sequenciamento demonstra que boa parte dos 99% do código genético que hoje não produz proteínas, são resquícios do passado evolutivo do ser humano, seqüências de código genético que foram um dia ativas, produzindo proteínas há milhares ou milhões de anos atrás, e que a evolução fez com que se tornassem inativas. A primeira análise do sequenciamento do Genoma sugere que pelo menos boa parte destes vastos trechos sem sentido, cobrindo 99% do genoma, são verdadeiros "fósseis genômicos", alguns deles em pleno processo de extinção. Porém grande parte destas seqüências tem permanecido intacta ao longo da evolução, e portanto devem ter alguma função reguladora, não sendo apenas "lixo genético" como se pensou inicialmente.

  4. Agora que genomas inteiros de outras espécies muito próximas da nossa, inclusive de mamíferos muito próximos ao ser humano na escala hierárquica da vida, como o camundongo e agora o rato, já foram sequenciados e analisados por completo, e de outros mamíferos estão em vias de ser decifrados completamente (como o do chimpanzé, macaco, cachorro, vaca e canguru), pela primeira vez na história nos é possível praticar uma Genômica Comparativa, ou seja, é possível com grande precisão comparar os genomas de espécies de mamíferos diferentes, de modo nunca antes imaginável, e tentar compreender o que nos diferencia e o que nos assemelha a outras espécies. Como está comprovado que ratos, camundongos e humanos tem genomas de tamanho muito parecidos e número de genes muito similares, caem definitivamente por terra o valor destes critérios até então utilizados para tentar explicar geneticamente o que nos torna mais "evoluídos". Já sabemos também que nossa seqüência genômica de 3 bilhões de pares de bases nitrogenadas difere em cerca de apenas 1,2% da do genoma do chimpanzé, e cerca de 15% do genoma do camundongo e do rato. Em termos dos genes propriamente ditos, já sabemos que pelo menos 90% dos genes dos ratos estão presentes em humanos e em camundongos, e 80% dos genes dos camundongos estão presentes em humanos. Isto por um lado nos demonstra que os mamíferos são, genomicamente falando, muito mais parecidos do que poderíamos imaginar, e nos dá a grande vantagem de estudar modelos animais como o rato, camundongo e chimpanzé, como se estivéssemos praticamente pesquisando a nós mesmos. Tamanha similaridade também explica por que diversas doenças genéticas que afetam os seres humanos acontecem em outras espécies. Agora que temos certeza de que os genes que quando mutados nos causam doenças estão presentes também em outros mamíferos, e agora que conhecemos aonde e como estão mutados estes genes em animais, podemos aprender como e porque acontecem naturalmente o albinismo em galinhas, a hipertermia maligna e a hipercolesterolemia em porcos, a narcolepsia em cachorros, e doenças mais complexas e mais freqüentes como Diabetes, Hipertensão Arterial e Câncer, e transferir estes conhecimentos para os seres humanos. Não apenas comparando o genoma destes mamíferos nas regiões aonde estão os genes causadores de doenças, mas também comparando as regiões genômicas que não tem genes mas são compartilhadas e conservadas iguais em vária espécies, poderemos identificar áreas do Genoma aonde a natureza não tolera mudanças, e compreender o seu significado biológico. Por outro lado, uma diferença de 1,2% entre a seqüências de humanos e chimpanzés e de 15% entre humanos e roedores também sugere porque apesar de muito parecidos, somos diferentes, afinal 1,2% de 3 bilhões de letras bioquímicas representam cerca de 36 milhões de letras, resultado das mudanças que ocorreram desde o momento em que divergimos na escala, há milhões de anos atrás!!!! E quando estas análises comparativas são estendidas do nível do DNA (genômico) para o nível das proteínas (proteômico), encontramos diferenças bem maiores entre humanos e chimpanzés, próximas de 10%. Nestas regiões que diferem é que vamos garimpar o conhecimento para explicar doenças ainda pouco compreendidas em humanos (como Alzheimer, esquizofrenia, autismo, suscetibilidade a Aids e Malária), e compreender melhor características específicas dos humanos (como a fala, a habilidade cognitiva, características de envelhecimento, eliminação e toxicidade de medicamentos). Por exemplo, foram apresentados no Congresso do HUGO em Berlin os primeiros experimentos de Genômica Comparativa feitos para explicar porque os humanos dependem menos do que os roedores e chimpanzés do sentido de olfato. Os resultados preliminares destes experimentos demonstram que centenas de genes humanos relacionados ao olfato vem sendo pouco a pouco "silenciados" com o passar das gerações, visto que evolutivamente o ser humano tem utilizado cada vez menos o sentido do olfato. Começamos a perder estes genes há 3 milhões de anos e continuaremos a perdê-los por mais um milhão de anos, se persistir a velocidade atual de silenciamento de genes relacionados ao olfato. Como podem ver por este exemplo, com o sequenciamento do Genoma Humano temos hoje a nossa disposição ferramentas para explicar fenômenos de evolução das espécies, jamais imagináveis não só por Charles Darwin, mas nem por nós mesmos há poucos anos atrás, na era pré-genômica. Este novo e fascinante ramo da Genética, a GENÔMICA COMPARATIVA, foi o principal tema do Congresso do HUGO em Berlin.

         Se o século XIX foi o século da Química e o século XX o da Física, o século XXI será sem dúvida o da Genética. Estas descobertas trarão mudanças radicais na Medicina. Já é possível hoje saber se um indivíduo nascerá ou nasceu com predisposição a ter filhos com determinadas doenças, ou se ele mesmo desenvolverá esta doença. Existem milhares de doenças genéticas diferentes, e com certeza muitas delas você nunca ouviu falar. Tomemos uma só como exemplo de que as doenças genéticas não são tão raras como se imagina. Você já ouviu falar em Fibrose Cística ou Mucoviscidose, também conhecida como "Doença do Suor Salgado"? É apenas uma das milhares de doenças genéticas, que atinge os pulmões e o pâncreas, e leva a morte em média metade das crianças que tem este mal ao redor dos 10 anos de idade no Brasil. Já passou alguma vez pela sua cabeça que, mesmo desconhecendo por completo esta doença e não tendo ninguém na família com este problema, você pode ter nascido com predisposição a desenvolver esta doença ou vir a ter filhos com Fibrose Cística? Pesquisa feitas por nosso grupo nos últimos 15 anos demonstram que uma em cada 7500 crianças dos Estados do Sul do Brasil nasce com esta doença fatal, e um em cada 50 brasileiros (isto mesmo, um em 50!!) nasce com predisposição hereditária a ter filhos com Fibrose Cística. Um em cada 2500 casais tem uma chance de 25% de ter filhos com esta doença! Se você está espantado com a possibilidade alta, arregale os olhos ao lembrar que esta é apenas uma entre as milhares de doenças genéticas....Graças ao sequenciamento do Genoma, dentro de alguns anos poderemos diagnosticar no primeiro dia de vida se um bebê vai ou não ter estes tipos de doenças. Será possível fazer o diagnóstico destas doenças antes delas se manifestarem. A Medicina, que hoje é quase que totalmente terapêutica, vai se tornar uma ciência preditiva. Nos próximos dez anos teremos condições de predizer se uma pessoa que já tem um histórico familiar de determinada doença genética, vai ou não ter uma das milhares de doenças genéticas, muitos anos antes dos primeiros sinais e sintomas aparecerem. Médicos, que nesta nova forma de Medicina preditiva lidarão então com indivíduos sãos e não apenas com doentes, poderão tentar modificar o meio ambiente que cerca esta pessoa, ou prescrever medicamentos personalizados baseados no código genético do indivíduo, ou ainda, no futuro mais distante, mudar o genoma desta pessoa no sentido de tentar impedir que ela venha desenvolver a doença.

         Num segundo momento, daqui há cerca de 30 anos, o conhecimento completo do material genético permitirá medicações individualizadas para cada paciente. Saberemos se e como o organismo de cada um de nós vai aceitar ou não o medicamento, que poderá ser então mais específico e com menos efeitos colaterais.

         A longo prazo, digamos 50 anos, o sonho dos cientistas é poder "consertar" o que houver de errado no Genoma Humano. A terapia gênica ou "transplante de genes" é uma técnica que ainda está engatinhando, mas eu costumo lembrar que o transplante de órgãos também não existia há 50 anos. Daqui a 50 anos, o terapia gênica talvez seja tão comum como é hoje um transplante de fígado. Em termos de medicina e de ciência, 50 anos é muito pouco tempo. Há 50 anos atrás não sabíamos nem quantos cromossomos o ser humano tinha e não tínhamos a compreensão da estrutura da molécula do DNA. Chegará o momento da cura propriamente dita para esses erros genéticos que hoje estão sendo descobertos. Isso vai acontecer ou colocando um gene normal dentro das células ou introduzindo no corpo a própria proteína que o gene codifica dentro da célula.

         Todos estes avanços trarão junto inúmeras questões de ordem ética, moral, filosófica, cultural e religiosa, que foram também intensamente discutidos não Congresso do HUGO em Berlin. Apenas para mencionar um dilema ético que ainda não tem resposta, diante da rapidez com que estas inovações nos atingiram: cito um exemplo hipotético, mas que pode muito bem acontecer na minha prática como Médico Geneticista. Não seria impossível receber nos dias de hoje em minha clínica um casal que venha procurar um Aconselhamento Genético com a seguinte solicitação; Ela, uma mulher saudável de 38 anos de idade, estava grávida de 3 meses, e o pai e o avô paterno dela tinham morrido de uma das doenças hereditárias, chamada Coréia de Huntington. Trata-se de uma doença neurodegenerativa que, apesar da pessoa herdar o erro genético de um dos pais e portanto já nascer com este erro em todas células do corpo, só iniciará a apresentar sinais da doença por volta dos 40-50 anos de idade. A doença inicia sua manifestação com perda do controle dos movimentos dos braços e das pernas, seguida de um quadro progressivo de demência que leva inexoravelmente a morte em cerca de 5-15 anos. Como o avô e o pai da gestante que me procurou tiveram esta doença, ela tem 50% de chance de ter herdado o erro genético, e se este for o caso, muito provavelmente desenvolverá a doença nos próximos anos de vida. Pois ciente disto, e ciente de que com o sequenciamento do Genoma já é possível fazer um teste de DNA para diagnosticar com 100% de certeza se alguém herdou ou não este erro genético, o casal veio para o Aconselhamento Genético pedindo para que testássemos o feto para verificar se o feto herdou ou não o erro genético que vem matando de modo lento e cruel várias pessoas de várias gerações de sua família. A gestante confessou que se o exame do feto demonstrasse que este herdou o erro genético, o casal já tinha decidido que interromperia a gestação, pois não gostaria que um futuro filho viesse a ter o destino que o pai e o avô dela tiveram. Tecnicamente nosso Laboratório esta apto a fazer testes de DNA para mais de 1000 doenças genéticas diferentes, inclusive para estudar o gene da Coréia de Huntington. Também estamos aptos a fazer testes no feto no início da gestação, em casos específicos, como por exemplo, quando as gestantes tem idade avançada. O que ainda não estamos aptos é para enfrentar tal dilema ético. Se fizéssemos o teste do feto e este tivesse herdado o erro genético, não só a gestante interromperia uma gestação de um feto que provavelmente teria no mínimo 40-50 anos de vida saudável, como o resultado positivo no teste fetal automaticamente significaria que ela, a mãe gestante, herdou de seu pai e de seu avô o gene alterado, e dentre de poucos anos muito provavelmente iniciaria a apresentar os primeiros sinais e sintomas desta terrível doença incurável. Em resumo, se aceitássemos fazer o teste, estaríamos correndo o risco de ter que assinar dois atestados de óbito, um do feto e outro de sua mãe, em breve. O enorme avanço da Genética nos últimos anos nos habilitou tecnicamente para realizar estes exames, porém culturalmente, moralmente e eticamente, existem inúmeras situações como a descrita acima para a qual certamente não estamos ainda preparados. Fazer este tipo de teste e correr o risco de 50% de ter que dar um resultado ruim, seria concordar que não mereciam ter direito a vida pessoas como Joana dArc, Noel Rosa, James Dean, Sharon Tate, Jimi Hendrix, Janis Joplin, que morreram antes dos 30 anos. Aliás, nenhum lugar seria mais apropriado para discutir estas questões do que em Berlin, aonde o ser humano só não teve sucesso no seus piores impulsos eugênicos, porque há 60 anos atrás felizmente a humanidade não dispunha da tecnologia que hoje dispomos.

         Procurei nestas linhas fazer uma reflexão do impacto do grandioso acontecimento de 14 de Abril de 2003, o sequenciamento do Genoma Humano, e das discussões que um ano após se multiplicam pelos Congressos científicos, como o recém-realizado pelo HUGO em Berlin.

         Apesar das barreiras éticas, morais, filosóficas, culturais e religiosas a serem transpostas pelo conhecimento a ser adquirido do Genoma, acho que boa parte das respostas para os enigmas mais cruciais do ser humano, "De onde nós viemos?", "Quem nós somos?" e "Para onde nós iremos?" poderão ser pelo menos parcialmente respondidas quando compreendermos a real mensagem que este livro da vida chamado Genoma pode nos revelar. Fica cada vez mais evidente que ao menos uma parte da resposta para a pergunta "De onde viemos?" estará escondida nos ensinamentos que vamos aprender quando compreendermos melhor as funções dos Introns, os "fósseis genéticos" que carregamos dentro de cada célula do corpo; saberemos um pouco mais sobre "Quem nós somos?" analisando os Exons e as diversas proteínas que são codificadas por suas múltiplas combinações; porém, a pergunta mais importante, "Para onde nós vamos?", não poderá ser respondida dentro dos laboratórios e nem pelos cientistas do HUGO; Esta pergunta terá que ser respondida pela própria sociedade. A descoberta de um número bem menor de genes do que imaginávamos no Genoma Humano, traz da Natureza mais uma lição de humildade a ser aprendida pelos seres humanos; a de que não existe um determinismo genético para tudo, ou seja, nem tudo está escrito nos nossos genes. Penso que os cientistas devem continuar a ser movidos pelo instinto, e ter garantida a liberdade de ir em frente em suas pesquisas sem se preocupar aonde ela os levará. Mas dependerá da sociedade organizada determinar para onde devemos caminhar. Mesmo assim, ficam perguntas no ar; Como a sociedade poderia ter se organizado e atuado de modo firme e decisivo para decidir que a invenção "avião" só poderia ser usada para transportar pessoas rapidamente de um local para o outro, e não para despejar bombas nas cidades? Que a manipulação dos átomos deveria ser usada única e exclusivamente como fonte de energia, e não para fabricar bombas devastadoras? Nos intervalos do Congresso do HUGO, olhando para Berlin, com seus horrores do passado muito recente ainda estampados nas ruas, praças e monumentos, eu e meu colegas cientistas discutíamos se é realmente possível aprender com os erros do passado para construir um mundo melhor e mais junto. Concluímos que a nova Berlin, unificada e sendo reconstruída até hoje, mas sem vergonha de esconder os horrores cometidos em suas ruas no passado recente, talvez possa servir como exemplo. O enorme potencial de reduzir o sofrimento causado pelas milhares de doenças foi agora trazido ao mundo pelos cientistas. Cabe a sociedade definir para onde iremos com o Genoma humano sequenciado.

Clique aqui para ver um pequeno trecho de uma sequência genética.