Depois do genoma, a corrida pelo
proteoma
Identificação de proteínas assume
papel fundamental para a compreensão do genoma
HERTON ESCOBAR e LUCIANA MIRANDA
Com a conclusão das primeiras avaliações científicas do genoma humano,
divulgadas ontem nos sites das revistas Nature e Science, a atenção dos
pesquisadores se volta para um novo desafio e uma nova frente de estudos:
a identificação de genes e o seqüenciamento de proteínas. Uma pesquisa
está diretamente ligada à outra, pois são as proteínas, como a hemoglobina
e a insulina, que carregam as mensagems dos genes para controlar as
funções do organismo. O trabalho é grande, pois cada um dos 30 mil genes
pode produzir vários tipos de proteína. É o que os cientistas chamam de
flexibilidade genética, característica de seres complexos como o homem.
"O que define as propriedades do organismo não é exclusivamente o DNA,
são as proteínas codificadas por ele", diz o pesquisador brasileiro
Rogério Meneghini, diretor do Centro de Biologia Molecular Estrutural do
Laboratório Nacional de Luz Sincrotron, em Campinas, que há três anos
trabalha com o seqüenciamento e estudo das estruturas tridimensionais das
proteínas. O processo é semelhante ao seqüenciamento de genes: no genoma,
os cientistas identificam a ordem das bases nitrogenadas A, C, G e T (que
somam 3,1 bilhões de pares); no proteoma, estuda-se a combinação dos 20
tipos de aminoácidos, que podem assumir milhares de combinações. Uma vez
definida a estrutura da proteína, é possível determinar sua função no
organismo. "A nova era que se inicia é a do proteoma", diz Meneghini.
Próxima etapa - A importância das proteínas não é novidade para
os cientistas, mas a descoberta de que o genoma humano possui um número
muito menor de genes do que se esperava - cerca de 30 mil, ante previsões
iniciais que chegavam a 100 mil - reforçou a idéia de que os maiores
frutos em pesquisa médica serão colhidos a partir do estudo das proteínas,
não do DNA.
O segredo para a complexidade do homem, portanto, não está no número
de genes - igual ao do milho e pouco maior que o de um verme, por exemplo
-, mas na capacidade de produzir uma diversidade maior de proteínas.
Segundo Meneghini, o genoma humano servirá de trampolim para acelerar as
pesquisas do proteoma, que ainda estão em estágio inicial.
Primeiro, no entanto, será preciso identificar onde começa e termina
cada gene - um trabalho que poderá levar décadas. Apenas 1% de todo o
código genético codifica proteínas. "O grande desafio é distinguir os
genes e suas funções", diz Andrew Simpson, coordenador do Projeto Genoma
brasileiro. "O genoma humano é uma montagem virtual, a melhor hipótese que
temos hoje", completa Marcelo Briones, coordenador do Genoma Câncer na
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Mas é bom lembrar que em
ciência as descobertas não são definitivas, fazem parte de um processo."
Os cientistas já isolaram 15 mil genes humanos, mas apenas 7 mil têm
função conhecida.
Em Curitiba, graças à iniciativa do médico geneticista Salmo Raskin,
pesquisadores do Região Sul conferiram ao vivo a interpretação dos dados,
feita ontem pelo National Human Genome Research Institute (NHGRI). A
transmissão foi feita por videoconferência para 100 convidados, no Setor
de Engenharia Elétrica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná
(PUC-PR).
Para Raskin, que faz parte do Projeto Genoma Humano desde 1990, a
estimativa reduzida do número de genes humanos abre perspectivas como o
diagnóstico precoce de doenças genéticas. "Esse diagnóstico está mais
próximo do que se esperava." Segundo ele, hoje há cerca de 12 mil doenças
genéticas conhecidas. Em seu laboratório, Raskin já consegue fazer
diagnóstico precoce de 400, entre elas câncer de mama, hemofilia e mal de
Alzheimer.
"Em 30 anos, podem ser conhecidos os genes das 12 mil. O anúncio não é
o final da pesquisa, mas o início de uma era muito grande de pesquisa na
área biológica e de genética." Com o diagnóstico precoce é possível
evoluir para o tratamento por meio do "conserto do material genético
errado". Em 50 anos, Raskin acredita que os tratamentos serão
individualizados, graças aos avanços do genoma humano. (Colaboraram
Evandro Fadel e Janaína Simões, da Agência Estado)
|
 |

|