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Terça-feira, 13 de fevereiro de 2001

Depois do genoma, a corrida pelo proteoma
Identificação de proteínas assume papel fundamental para a compreensão do genoma
HERTON ESCOBAR e LUCIANA MIRANDA

Com a conclusão das primeiras avaliações científicas do genoma humano, divulgadas ontem nos sites das revistas Nature e Science, a atenção dos pesquisadores se volta para um novo desafio e uma nova frente de estudos: a identificação de genes e o seqüenciamento de proteínas. Uma pesquisa está diretamente ligada à outra, pois são as proteínas, como a hemoglobina e a insulina, que carregam as mensagems dos genes para controlar as funções do organismo. O trabalho é grande, pois cada um dos 30 mil genes pode produzir vários tipos de proteína. É o que os cientistas chamam de flexibilidade genética, característica de seres complexos como o homem.

"O que define as propriedades do organismo não é exclusivamente o DNA, são as proteínas codificadas por ele", diz o pesquisador brasileiro Rogério Meneghini, diretor do Centro de Biologia Molecular Estrutural do Laboratório Nacional de Luz Sincrotron, em Campinas, que há três anos trabalha com o seqüenciamento e estudo das estruturas tridimensionais das proteínas. O processo é semelhante ao seqüenciamento de genes: no genoma, os cientistas identificam a ordem das bases nitrogenadas A, C, G e T (que somam 3,1 bilhões de pares); no proteoma, estuda-se a combinação dos 20 tipos de aminoácidos, que podem assumir milhares de combinações. Uma vez definida a estrutura da proteína, é possível determinar sua função no organismo. "A nova era que se inicia é a do proteoma", diz Meneghini.

Próxima etapa - A importância das proteínas não é novidade para os cientistas, mas a descoberta de que o genoma humano possui um número muito menor de genes do que se esperava - cerca de 30 mil, ante previsões iniciais que chegavam a 100 mil - reforçou a idéia de que os maiores frutos em pesquisa médica serão colhidos a partir do estudo das proteínas, não do DNA.

O segredo para a complexidade do homem, portanto, não está no número de genes - igual ao do milho e pouco maior que o de um verme, por exemplo -, mas na capacidade de produzir uma diversidade maior de proteínas. Segundo Meneghini, o genoma humano servirá de trampolim para acelerar as pesquisas do proteoma, que ainda estão em estágio inicial.

Primeiro, no entanto, será preciso identificar onde começa e termina cada gene - um trabalho que poderá levar décadas. Apenas 1% de todo o código genético codifica proteínas. "O grande desafio é distinguir os genes e suas funções", diz Andrew Simpson, coordenador do Projeto Genoma brasileiro. "O genoma humano é uma montagem virtual, a melhor hipótese que temos hoje", completa Marcelo Briones, coordenador do Genoma Câncer na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Mas é bom lembrar que em ciência as descobertas não são definitivas, fazem parte de um processo." Os cientistas já isolaram 15 mil genes humanos, mas apenas 7 mil têm função conhecida.

Em Curitiba, graças à iniciativa do médico geneticista Salmo Raskin, pesquisadores do Região Sul conferiram ao vivo a interpretação dos dados, feita ontem pelo National Human Genome Research Institute (NHGRI). A transmissão foi feita por videoconferência para 100 convidados, no Setor de Engenharia Elétrica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Para Raskin, que faz parte do Projeto Genoma Humano desde 1990, a estimativa reduzida do número de genes humanos abre perspectivas como o diagnóstico precoce de doenças genéticas. "Esse diagnóstico está mais próximo do que se esperava." Segundo ele, hoje há cerca de 12 mil doenças genéticas conhecidas. Em seu laboratório, Raskin já consegue fazer diagnóstico precoce de 400, entre elas câncer de mama, hemofilia e mal de Alzheimer.

"Em 30 anos, podem ser conhecidos os genes das 12 mil. O anúncio não é o final da pesquisa, mas o início de uma era muito grande de pesquisa na área biológica e de genética." Com o diagnóstico precoce é possível evoluir para o tratamento por meio do "conserto do material genético errado". Em 50 anos, Raskin acredita que os tratamentos serão individualizados, graças aos avanços do genoma humano. (Colaboraram Evandro Fadel e Janaína Simões, da Agência Estado)

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